Experiência de Telepatia Pelo Dr. Jule Eisenbud

Jonas Yakamura - Mente em Transição
O doutor Jule Eisenbud (1908–1999) que foi membro da
Sociedade de Psicanálise de Nova York a da Associação Americana de Psicanálise e presidente da Sociedade Psicanalítica de Denver em seus 40 anos de prática da psicanálise, o norte americano verificou que muitas manifestações da mente humana não podem ser compreendidas dentro dos estreitos limites impostos pela ciência oficial. Em seu livro Psi and Psychoanalysis, ele abordou temas que causaram polêmica nos Estados Unidos. Neste artigo, ele fala sobre suas experiências com sugestão mental à distância.


O poder de uma pessoa influenciar os pensamentos e as ações de outra pessoa, à distância, é provavelmente um dos fenômenos que mais intrigam o homem. Os primitivos não o discutiam nem o contestavam e o empregavam como elemento indispensável em suas práticas de magia e bruxaria.
O homem moderno, porém, dominado, quase oprimido, pelas leis da causalidade e pela supremacia e prestigio que a ciência adquiriu nos últimos séculos, quase abandonou a procura de uma resposta para essa capacidade de influenciar outras mentes.

Por que a possibilidade da sugestão à distância, descoberta e redescoberta muitas vezes, parece nunca ter recebido o devido reconhecimento no arsenal conceitual da pesquisa psíquica?
Os estudos que Janet, Richet a outros realizaram no fim do século 19 sobre sonambulismo à distância foram interrompidos sem que se levassem em consideração as possíveis implicações de tão mal exploradas descobertas.

Também os pesquisadores soviéticos cujo porta voz principal, o falecido L. L. Vasilec, descreveu experiências bem documentadas à distância de 1.700 km parecem não ter avaliado corretamente a importância dos dados que obtiveram para a ciência do comportamento humano. Na verdade, a pesquisa sobre o assunto nunca mereceu um registro permanente e digno de crédito.

Como acho o assunto de importância capital, contarei aqui a minha experiência.

Há 25 anos, quando passava as férias de verão numa cidade a cerca de 150 quilômetros de Nova York, onde clinicava na época, fiquei muito interessado em um trabalho que li sobre sugestão à distância, e resolvi tentar a experiência.

Escolhi um de meus pacientes que tratava por meio da hipnose, um motorista de caminhão chamado Harry, que julguei estar em Nova York na ocasião. Concentrei-me por alguns minutos, sugerindo-lhe que me desse um telefonema interurbano   coisa que seria bastante extraordinária, se acontecesse.

Depois de fazer minha oração, pois foi isso que fiz ocorreu me que o eventual telefonema de Harry não só seria extraordinário, como também impossível, uma vez que a casa onde me encontrava não tinha telefone.

Uma semana depois, de volta à cidade, durante uma sessão de terapia com Harry, coloquei o em estado de transe a lhe dei "mentalmente" uma ordem para ser realizada depois da hipnose. Por alguns minutos concentrei me na ideia de que ele me telefonasse às 5 horas da tarde. A hora chegou a ele não me telefonou, e como não aconteceu nada no dia seguinte, conclui que o resultado da experiência fora negativo. Alguns dias depois, Harry me telefonou para dizer que ia sair de férias em agosto. Não considerei isso um "resultado".

Entre os dias 18 a 25 recebi três cartões de Harry, enviados de onde ele estava, a 100 quilômetros de Nova York. Como, durante os dez anos em que o conheci, ele me enviara apenas uma carta descrevendo um sonho, a pedido meu, essa nova necessidade de se comunicar comigo parecia ser motivada por algum impulso fora do comum.

No dia 26, Harry me deu um telefonema interurbano, valendo se de um pretexto evidentemente arranjado. Fiquei achando então que ele me enviara aqueles cartões durante algum tipo de luta contra a compulsão de me telefonar.

Lembrando que eu o havia "chamado" quando ele não tinha possibilidade de responder, fiquei pensando se a "ordem" inicial teria prioridade e se tudo mais deveria esperar até que ela fosse cumprida. O fato é que, só quando Harry estava a muitos quilômetros de distância, pôde cumprir a primeira ordem. E os postais, que certamente não eram o tipo de comunicação que eu pedira, podiam muito bem significar uma luta interna de Harry para não ceder a um ato inteiramente contrário ao seu comportamento habitual.

Isso é comum quando um paciente recebe ordens verbais para serem cumpridas depois da hipnose. A pessoa tenta uma fusão, um acordo, numa tentativa literal, onde isso não é possível. Tanto a primeira quanto a segunda ordem foram dadas durante a tarde, e o telefonema interurbano chegou às 12h45.
Harry teria indiretamente conseguido realizar minhas ordens dadas mentalmente?

Para que eu pudesse continuar o trabalho com Harry quando ele voltasse para Nova York, tomei nota do que aconteceu e arquivei cuidadosamente os cartões postais. Mas Harry demorou muito a voltar, e eu resolvi esquecer o caso, como se tivesse recebido uma ordem hipnótica para sofrer uma espécie de amnésia sobre o assunto.

Algumas semanas depois, esses acontecimentos de repente me voltaram a memória, de novo por causa de algo que li. Resolvi retomar a experiência. A primeira pessoa que tentei chamar foi Harry, a quem não via desde que saíra da cidade. Concentrei me. Dentro de algumas horas ele me telefonou, apenas para dizer alô.

A "vitima" seguinte de quem me lembrei foi um paciente de Nova Jersey, que tinha sido facilmente hipnotizado por sugestão minha dois dias antes. Contudo, abandonei a ideia, já que era um paciente recente a não tínhamos tido tempo para desenvolver um relacionamento. Ainda assim, menos de uma hora depois, esse paciente me telefonou para perguntar se podia transferir sua próxima consulta para daí a três semanas. Estranho. Seria isso, perguntei a mim mesmo, como que a recusa dele a se submeter às minhas experiências, já que ele me conhecia pouco e não poderia confiar em mim? Mas como poderia eu saber que só o fato de pensar em fazer a experiência com aquele paciente se constituíra numa espécie de ordem? Fiquei tentando descobrir quais pensamentos eram "ordens" a quais não eram.

No dia seguinte, resolvi fazer mais um teste. Concentrei me alguns minutos para "chamar" uma senhora que morava em Connecticut e que eu não via há quinze meses. Dentro de uma hora ela respondeu ao meu chamado, dizendo que tinha sentido a compulsão de se comunicar comigo.

A coisa estava ficando ridícula. Eu ainda não estava preparado para acreditar apesar de tudo o que tinha lido que bastava "pensar" para forçar as pessoas a fazerem coisas que de outra maneira não lhes teriam passado pela cabeça.

Ocorreu me uma alternativa: que os três, Harry, o paciente de Nova Jersey e a amiga de Connecticut, iam me telefonar por qualquer razão a eu, telepaticamente, tomei conhecimento de suas intenções. Assim, eu estaria apenas imaginando que aqueles telefonemas casuais foram provocados por mim. Sem analisar melhor essa explicação, fiquei satisfeito por me sentir ainda entre os mortais comuns.

De novo deixei de pensar no caso. E isso por várias semanas, numa espécie de amnésia confortável.
Então, no começo de abril, fiz uma reconsideração. Estava examinando meus arquivos dos últimos meses, a encontrei notas incompletas sobre essas experiências. Isso em si era significativo. Afinal, por que eu não tinha feito minhas habituais notas detalhadas sobre o que aconteceu? Por que estava tratando tudo com tanta displicência? Compreendi afinal que estava obviamente fugindo de uma coisa que me causava grande ansiedade.

Então recomecei, numa firme tentativa de trabalhar só com Harry e manter meu pensamento atento.
Mas, mesmo assim, tive enorme dificuldade para registrar por escrito todos os detalhes da experiência, para descrever como me concentrava para fazer Harry me telefonar, ou como era quando apenas pensava que talvez fosse conveniente ele me telefonar em tal tarde.

As coisas se tornaram muito confusas, pois, duas ou três vezes em que me concentrei intensamente, Harry não telefonou. E em outras vezes, nas quais apenas pensei nessa possibilidade, Harry deu se ao trabalho de me telefonar sob um pretexto qualquer.

Uma vez ele telefonou apenas para dizer que o lampião que eu lhe havia emprestado há meses precisava ser consertado. Lembrei lhe que já me tinha dito isso. Outra vez, depois de uma sessão de "concentração", esqueci as ordens dadas e sai à tarde. Quando voltei às 2 da madrugada, disseram me que Harry havia telefonado várias vezes a parecia ansioso por me encontrar. Afinal falei com ele às 2h15. O que era?

Estava procurando um cinema que lhe alugasse um lugar onde pudesse vender balas, e queria saber se eu aprovava a idéia. Disse lhe que ele já tinha falado nisso há alguns dias, e que não precisava resolver imediatamente. Ele não sabia dizer por que era tão urgente falar comigo àquela hora da manhã.

Nos três dias seguintes deixei de pensar em Harry, mas ele telefonou e disse que queria me ver.
Encontrei o no meu consultório no dia seguinte e vi que estava preocupado. Sugeriu que fôssemos andar, e por fim falou. Nas últimas duas semanas, disse, parecia obcecado comigo. Acordava de manhã pensando em mim, is dormir comigo no pensamento. Não podia parar de pensar em mim.

Não lhe contei o que estava acontecendo, mas garanti que ia livrá lo do problema. Voltamos para o consultório e o pus em estado de transe. Disse lhe então o que estava tentando realizar e garanti que a obsessão ia desaparecer sem outros efeitos. E desapareceu. Alguns dias depois, ele me telefonou para confirmar que tudo desaparecera milagrosamente depois da sessão, e que ele estava conseguindo trabalhar normalmente.

Depois disso, eu também voltei a "trabalhar normalmente", o que quer dizer que em todos esses anos, depois das experiências com Harry, não fiz outras tentativas de sugestão a distância.

Existe um princípio, aceito por quase todas as escolas de psicanálise, que todos nós temos não muito longe da superfície, e pronto para se manifestar de uma forma ou de outra sob tensão forte resíduo da ilusão infantil de onipotência, do desejo narcisista de conseguir o controle mágico das pessoas à nossa volta. Muitas obras da literatura e da arte em geral atestam o poder de atração desse tema.

Contudo, raramente se admite que a ameaça de algo como a compreensão de tais desejos, reais ou simbólicos, provoca forte resistência inconsciente no Homem moderno. Essa resistência se baseia nos eternos conceitos de loucura e normalidade, mente equilibrada e mente perturbada. Poucas pessoas são capazes de aguentar por muito tempo e muito menos apreciar (à parte a ética do assunto) os poderes imaginários que podem possibilitar superar algumas das inevitáveis dificuldades a frustrações da vida.

Resta saber até onde os investigadores atuais ampliarão suas pesquisas, por quanto tempo serão capazes de tolerar o trabalho continuo que ele requer e quais as consequências científicas e outras que resultarão de um ataque renovado sobre esse fenômeno, que pode ser descrito como enteado da parapsicologia atual.

Diz-se que a sugestão mental à distância está sendo largamente empregada hoje nos Estados Unidos com quanto êxito, não se sabe   por moças que querem influenciar os rapazes a se interessarem por elas.

Mas, mesmo se não conseguirmos demonstrar experimentalmente sua eficácia, creio que hoje sabemos o suficiente sobre a sugestão à distância para desenvolvê-la criativamente em nosso pensamento.

Por Jonas Souza


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